Cadeia de fornecedores do Setor Automotivo: Cenários pós-Pandemia

Vaz de Almeida contrata: Advogado Contratualista Júnior
09/06/2020
Governo prorroga prazo para recolhimento de tributos federais
17/06/2020

Cadeia de fornecedores do Setor Automotivo: Cenários pós-Pandemia

Cadeia de fornecedores do Setor Automotivo: Cenários pós-Pandemia
Assim como em todos os outros segmentos do mercado, «liquidez» e «caixa» são as palavras de ordem também para segmento de Autopartes.

por Paulo Reganin*

O IBGE publicou no início do mês de junho, que 22 entre 26 Setores Econômicos da Indústria nacional registraram resultados negativos na ordem histórica de 2 dígitos.

É o maior recuo da série histórica há 20 anos e impactou duramente a classe de bens de consumo duráveis, com queda de 79,6% em abril, puxada para baixo justamente pela cadeia produtiva de Autopartes e Montadoras. Só a fatia de veículos automotores, reboques e carrocerias teve uma queda de impressionantes 88,5%.

Os dados são da Pesquisa Industrial Mensal (PMI) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.

O Brasil que, antes da pandemia, ainda estava se refazendo de um longo período de recessão causado pelos dois governos anteriores, mal aprovou a reforma previdenciária e agora experimenta um recuo sem precedentes na atividade industrial, tanto em intensidade quanto em alcance, registrando, entre março e abril, a utilização de apenas 49% de sua capacidade instalada.

Alerta desde janeiro e rapidamente adaptada, a Indústria de Autopartes de grande porte no Brasil acompanhou os acontecimentos na China precocemente e reconheceu que (a) haveria rupturas nos fluxos de supply chain; (b) que a medida imediatamente mais importante seria cuidar da saúde do capital intelectual; e que (c) seria necessário examinar à lupa, as relações contratuais em todas as direções e os prazos e formas de pagamento de seus fornecedores.

Além disso, Montadoras e Autopeças, das maiores para as menores, se preocuparam, na medida do possível:

(1) em proteger a sua capacidade de oferta, considerando que os seus produtos são ― sim ― essenciais, por exemplo, para o transporte público, para a cadeia produtiva de alimentos, de abastecimento de supermercados e de postos de combustíveis; e

(2) de se atentar para a sustentabilidade do negócio, considerando como haverá de lidar com os desdobramentos do atual cenário e as formas de emergir da crise, assegurando sua liquidez.

Com as peculiaridades de um país emergente, os 10 últimos dias de março e os meses de abril e maio serviram para a Indústria de Autopartes aprender a lidar com as peculiaridades do distanciamento social «ao modo brasileiro», operacionalizar a aplicação das medidas legais transitórias aprovadas para as relações de trabalho durante a «quarentena», aproveitar ao máximo as oportunidades fiscais e tributárias postas de pé pelo Governo Federal e pelo Congresso, explorar a legislação especial e transitória em matéria de Direito Corporativo e assegurar, é claro, os recebimentos de curtíssimo prazo.

Esse período inicial foi heroico.

Muitas empresas ainda não se recuperaram completamente das duas grandes crises acumuladas nos últimos anos: a crise global de 2008 e a recessão econômica no Brasil entre os anos de 2015-2017. A diferença entre as crises de 2008, 2015-2017 e esta, de 2020, ajuda antever as projeções: em 2008, as filiais no Brasil ajudaram as suas matrizes; em 2015-2017, as matrizes enviaram ajuda para as filiais brasileiras. Agora, filiais e matrizes pouco poderão fazer umas pelas outras. Por isso, os executivos brasileiros terão de tomar as suas próprias decisões difíceis.

Empresas com uma situação econômica razoável, devem conseguir capital de giro para lidar com a recessão econômica que avança em razão da pandemia.

Já as empresas médias e pequenas que se encontram reféns do acesso ao crédito do sistema bancário de varejo, certamente vão ter problemas. Os bancos não confiam no Estado como fiador, jamais fazem apostas e ainda detectam facilmente o nível de endividamento dos candidatos a empréstimos.

Há, também, o receio de que (1) muitos entre os pequenos fornecedores locais que servem a Indústria de Autopartes não consigam retornar; (2) que o processo recessivo da economia e a dívida pública demande entre 2 e 6 anos de recuperação até chegar no zero; (3) e que o câmbio, desfavorável à importação de componentes tecnológicos, cause ainda mais dificuldades na cadeia produtiva.

Por outro lado, é praticamente uma vocação dos líderes de negócios do Setor Automotivo do Brasil lidar continuamente com crises e se reinventar.

O Brasil guarda uma longa tradição de instalação de montadoras, com nichos amplamente diversificados e vasto mercado em potencial ainda não explorado.

Cenários e perspectivas
A perspectiva de cada fornecedora de Autopartes vai depender de seu ponto de partida.

Há uma aposta de que as montadoras se tornarão menos reféns dos fornecedores chineses e que a cadeia global de Autopeças seja reestruturada.

Muitas sistemistas estão dispostas a nacionalizar e devem enfrentar muitos desafios. Com o dólar entre 4 e 6 reais, a nacionalização está em pauta, as montadoras pedem nacionalização e, se quiserem, terão que pagar o seu preço. Resta saber se, depois da pandemia, acalmados os ânimos, os desejos de hoje serão os mesmos do amanhã.

Em geral, os grandes componentes já são nacionais, mas há mercado para pequenas peças, acabamentos e componentes eletrônicos.

Considerando o aumento dos custos e, por isso, a pressão sobre os preços, é um cenário possível que os fornecedores de aço e plásticos locais apareçam mais e ofereçam melhores orçamentos, ao contrário dos fornecedores de componentes tecnológicos, a maioria fora do Brasil ― e que devem aumentar seus preços.

Há também a variável de que cada montadora tem sua própria política de relacionamento com os seus fornecedores. Enquanto algumas montadoras se preocupam em manter sua cadeia de fornecedores saudável, outras impõe o preço como forma de seleção natural. Por isso a tensão entre Autopeças e Montadores deve aumentar ainda mais.

O incremento da aplicação da automatização e da robotização, (instalada extensivamente apenas nos países em que o seu custo é mais baixo do que o custo da mão de obra local), agora pode ser considerada uma hipótese como fator de segurança da produção, diminuição da densidade de pessoas nas linhas de montagem e, consequentemente, seus potenciais riscos sanitários.

É possível que a pandemia impacte as recentes disrupções em mobilidade, como o compartilhamento de carros, os serviços de transporte por aplicativos e até mesmo os tradicionais meios de transporte coletivo, por serem formas de locomoção que facilitam eventuais contágios. Esse cenário não parece provável, em todo o caso as equipes de marketing talvez apostem nessa abordagem.

Em tempos de pandemia, os executivos estão trabalhando duro e agindo rápido. O curto-prazo se tornou um dia, o médio-prazo se tornou uma semana e o longo-prazo se tornou um mês.

*Dr. Paulo Reganin. Advogado e gestor da marca Vaz de Almeida Advogados.

VAA
VAA
VAZ DE ALMEIDA ADVOGADOS é um escritório de advocacia abrangente, dedicado à excelência do atendimento às empresas e aos seus principais líderes, ultrapassando os padrões convencionais da advocacia ao proporcionar uma experiência incomum em qualidade técnica e relacionamentos.

Nossa newsletter

Subscreva a nossa newsletter e receba regularmente as nossas notícias

Vaz de Almeida - Advogados